A ARTE DA VIDA

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O BORDADO E A GENEALOGIA FEMININA

Obra de Jacirema Cleia Ferreira - Minhas Árvores


A genealogia é uma ciência auxiliar da história que estuda a origem, evolução e disseminação das famílias e respectivos sobrenomes, ou apelidos (sobrenomes derivados de alcunha).

Segundo a escritora Lélia Almeida* ( lelialme@yahoo.com.br)a genealogia feminina têm sido tema recorrente na literatura de autoria feminina. Textos de Margaret Atwood, Laura Esquivel, Lya Luft e Rachel Jardim trazem a público uma maneira própria de interpretar essa tendência: a representação das mães e filhas, dentro de um corpus ficcional onde essa relação se apresenta sempre de forma complexa e particular.

Lélia em seu texto Genealogias femininas em O penhoar chinês de Rachel Jardim, analisa as várias interfaces do bordar e narrar como transcrevo a seguir:

"1 TECER E NARRAR: O QUE TECEM AS FILHAS DE PENÉLOPE?
O texto de Rachel Jardim, dividido claramente em três partes, trata de um diálogo entre uma mãe e uma filha que se dá depois da morte da mãe que deixa para a filha, como uma espécie de herança, de legado, uma carta, que constitui a parte central, o miolo do texto.

A narrativa inicia com uma reflexão sobre o tempo, que aparece como tendo o mesmo significado do tecido gasto do bordado no bastidor. Assim, recuperar o tempo e retomar o bordado situam-se na mesma ordem de significado de resgatar a memória:

[...] O tempo o que é? [...] Tento recompor este tecido gasto trabalhando com a agulha mais fina para não ferir demais as fibras envelhecidas, Ajeito os óculos com mãos meticulosas, e me lembro de que, quando pegava o bastidor e sentava no sofá do lado oposto de minha mãe, o risco logo surgia nítido diante dos meus olhos, um traçado azul, mapa da viagem a ser iniciada. O tempo emprega os seus pequenos instrumentos de tortura, com os quais nos fere sem grandeza. A enlouquecida teimosia que me levou a retomar esse bordado quase impossível de ser recuperado é a mesma que me atirava na infância as empreitadas mais absurdas, pelo gosto de desafiar a ordem das coisas, a tirania das tramas secretas que conduziam nosso destino. (p.3)1

Essa imagem inicial, a de uma mulher que borda, leva-nos a algumas reflexões que situam o romance de Rachel Jardim numa tradição de textos de autoria feminina e a uma concepção do tempo típica desses textos.

São vários os romances de autoria feminina que usam e abusam do procedimento da construção da trama relacionada à confecção de uma colcha, uma manta, um patchwork ou de um penhoar, como no caso de Rachel Jardim. Vemos presente, ativa, a figura arquetípica de Penélope que, entre nós, encarna o mito e o ideal feminino da mulher que espera e que, enquanto espera, tece e borda.

No mito grego, no entanto, Penélope espera a volta de Ulisses, o herói conquistador que se perdeu por horizontes longínquos e tarda em voltar. Mas Penélope não tece para se distrair. Tece com o pretexto de enganar seus pretendentes, que, certos da morte de Ulisses, a pressionam contrair novas bodas. Ela decide então começar a bordar um tapete e só ao término do trabalho fará sua escolha, a escolha do pretendente. A estratégia de Penélope, como sabemos, era outra. O que ela tecia durante o dia, desfazia durante a noite, adiando indefinidamente o término do trabalho e a escolha do novo consorte. Mas Penélope esperava por Ulisses, sabia de intuição profunda que o marido, não só não havia morrido como haveria de voltar, e então sua longa espera seria recompensada e sua paciência estaria francamente justificada.

Esta é uma das mais claras e populares imagens de feminilidade, a da mulher que espera um consorte, um amor, espera seu amor, seu consorte e que, enquanto espera, pacientemente, borda, tece, junta os fios e as cores.

Um dos procedimentos recorrentes entre as autoras dos anos 70 e 80 do século passado é a releitura ou reiterpretação de mitos ou arquétipos femininos criados pela cultura patriarcal e que cristalizaram determinadas imagens femininas como estereótipos. O mito de Penélope, ícone indiscutível e adorado da cultura patriarcal, quer-nos fazer acreditar que o destino das mulheres é esperar por seus homens, e esperar pacientemente, o que as dignifica sobremaneira. E, além de esperar pacientemente, Penélope tece, como abelha industriosa, distraindo-se produtivamente, enquanto tece. É este um dos tantos mandatos patriarcais sobre algumas condutas femininas ao longo da história do mundo: às mulheres cabe esperar pacientemente, labutar produtivamente e enquadrar-se passivamente à imagem do peito que acolhe o descanso do guerreiro.

Quando algumas autoras retomam e reescrevem alguns mitos ou reiterpretam alguns personagens literários, a história que nos é contada começa por mostrar a possibilidade de novas imagens de mulheres, correspondentes às novas condutas."


E de forma extraordinária ela cita mulheres, suas obras e estórias envolvendo a arte de tecer e bordar:

Entre a literatura feminina, destacada por ela , que mais me interessou listo a seguir e uma pequena sinopse dos livros:
SENTINELA -Lya Luft-"Às vésperas da inauguração de uma empresa chamada Penélope e num momento de vida em que faz balanços e organiza contabilidades, a protagonista Nora apresenta-se assim:é a sensação de ter voltado para casa, fechado um ciclo, concluido uma fase importante de uma complicada tapeçaria.

COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE-Laura Esquivel- Tita a protagonista para proteger-se da culpa e da angústia que sente por desejar o noivo da irmã,decide começar a tecer uma colcha que a obrigasse do frio e da solidão.Vejam o filme é excelente!

VULGO,GRACE-Margaret Atwood- O próprio sumário do romance de quinze capítulos, corresponde a quinze nomes de traçados de bordados típicos dos patchworks americanos e canadenses.Cada traçado conta uma história, tem uma concepção, quase sempre ligada a interpretações de fundo religioso ou moralista, para a boa educação feminina que, assim, bordando, vai cultivando o espírito. Exemplos de nomes desses padrões de bordados são Estrada de Pedras, Senhora do Lago, O Templo de Salomão, A Caixa de Pandora, A Letra X ou A Árvore do Paraíso, só para citar alguns. Cada um conta uma história representada, de forma padrão, no risco dos bordados e colchas que eram muito populares entre as moças da época e cada uma delas devia bordar a própria colcha, peça fundamental de seu enxoval.


Para cada obra destas incríveis autoras da  história da genealogia feminina é a história dos cuidados com os outros sem que as mulheres praticamente encontrem no mapa de suas próprias vidas um modelo,uma figura de autoridade feminina, que possa conferi-lhes valor e importância.

Com grande profundida Adriana Lunard, faz uma reflexão sobre a história das grandes escritoras femininas e de sua própria história de vida.

VESPERAS- Adriana Lunard- Vésperas é uma homenagem a grandes escritoras, transformadas em personagens e retratadas na sua solidão, ambigüidades, paixões e angústias. A idéia de morte, sob diferentes focos, perpassa o livro, escrito como uma prosa poética. São nove histórias, cada uma delas envolve uma personalidade da literatura: Virginia Woolf, Dorothy Parker, Ana Cristina César, Colette, Clarice Lispector, Katherine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald e Júlia da Costa. Adriana Lunardi valeu-se de detalhes biográficos dessas mulheres, combinou-os com a sua ficção e, nos contos sobre Woolf, Parker, Colette, Mansfield e da Costa, intui e descreve os últimos dias e momentos de suas vidas.


No Penhorar Chines-de Rachel Jardim, livro comentado por mim, no penúltimo tópico, achei nas primeiras páginas, estas preciosas indicações de literatura feitas por mulheres!Já providenciei a aquisição dos livros acima indicados!




5 comentários:

JACIREMA CLEIA FERREIRA disse...

Excelente maneira de apresentar a escritora Raquel Jardim aos leitores. Há um belíssimo texto dela, anterior ao "Penhoar Chinês" intitulado "Inventário das Cinzas" no qual uma mulher na meia-idade faz uma profunda e instigante reflexão sobre os erros e acertos dos laços estabelecidos ao longo de sua existência. Uma pérola.
E no rol dos livros citados na introdução do "Penhoar Chinês" vale uma aproximação com a autora Marcela Serrano. Lá está citado "Antigua, vida mia", infelizmente só publicado em castelhano, este também versando sobre a trajetória de duas mulheres profundamente ligadas pela amizade. Desta autora também li o imprescindível "Para que no me olvides" no qual a protagonista, privada subitamente da voz em função de uma afasia, faz uma retrospectiva questionando todos os valores de sua vida. Por enquanto, se deliciem com estas sugestões, seguimos falando neste maravilhoso mundo virtual que, paradoxalmente, tanta corporeidade nos propicia. Beijus, JACI

A Arte da Vida disse...

Obrigada Jaci, por mais um caminho para o auto-conhecimento e do universo feminino!Beijos, Katia

JACIREMA CLEIA FERREIRA disse...

Compus este texto para apresentar o trabalho de minha pequena aluna Carolina, de 7 anos.
Veja fotos no link abaixo, um blog do qual participo com uma grande amiga agora também bordadeira de Campinas. Mais uma mulher para nossa genealogia.
Beijus, JACI
http://bordaderia.blogspot.com/
Carolina, de olhos fundos como na

Cantiga do velho Chico

Pequenas mãos que entremeiam incertas

os primeiros pontos,

a agulha perfurando o tecido com o verde.

Uma, duas correntes surgem

Formando os elos iniciais

Da copa de uma árvore

Seus inocentes olhos azuis
Brilham
O encanto com as cores, fios e texturas
Neles refletidos
Como as estrelas no mar.

Micheline matos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Micheline matos disse...

Eu amei sei blog!vou seguir! lindo texto!Obrigada pela visitinha!Mi